não há motivo para te importunar a meio da noite

"não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.

tudo desaparece. nada desaparece. tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada.
tens direito a um subsídio de paz.

se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.

toda a gente sabe que a noite é longa. não tenho
o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.

e morro, mas não morro. se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?

ou não atendias. e eu ficava aqui. com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos"


José Luís Peixoto
-Gaveta de Papéis-
2008



ps: obrigado linhas *

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